15.5.07

E O SIMAS DISSE TUDO!

No dia 09 de maio, quarta-feira passada, quando escrevi valendo-me do dosador imaginário (leiam aqui), escrevi o seguinte, grifado o trecho que importa:

"Na sexta-feira passada, 04 de maio, eu, Simas e Rodrigo Ferrari demos uma pequena entrevista para uns estudantes da PUC que estão fazendo um trabalho sobre butecos, e justo comprando a briga que eu compro aqui, há anos, contra esses bares-de-merda que invadem a cidade. Foi no segundo andar da livraria Folha Seca, e foi - confesso com a modéstia deixada de lado, que modéstia demais também é coisa de viado - absolutamente divertido. Seguramente a repercussão será mínima, ínfima, já que trata-se de um trabalho para a faculdade... Mas que foi muito bom ver que tem gente pensando como a gente e disposta a divulgar a coisa, foi. O astral na livraria estava, pra variar, perfeito - Cassio Loredano e Betinha regendo o furdunço - e vou tentar, em breve, pôr aqui umas imagens da entrevista na qual, é claro, destacou-se o monstruoso Luiz Antonio Simas, dando a mim e ao Rodrigo a perfeita dimensão de nossa importância: nenhuma."

Feitas a transcrição e o grifo necessário, vamos ao que interessa.

O Simas domina as palavras como se fosse, delas, o criador. É claro. É suscinto. É direto. É sábio...

(estou aqui, adjetivando Luiz Antonio Simas e me dando conta de que, além do medo que tenho dele - confessado aqui - tenho pelo caboclo uma extremíssima admiração, crescente a cada dia)

Enfim... Conto-lhes tudo isso apenas para dizer que eu, que faço do BUTECO uma trincheira em defesa dos butecos mais vagabundos, aos quais não resisto, nunca consegui dizer tanto em tão poucas palavras, como meu querido Luiz Antonio Simas, em seu obrigatório blog HISTÓRIAS DO BRASIL. Leiam vocês mesmo, ou confiram aqui:

"RESISTIR É PRECISO

Vivemos, e isso não é novidade alguma, uma época de uniformização dos costumes, fruto deste tal "mundo globalizado". Em todo canto desse mundo velho sem porteira, gerido por mega-redes transnacionais de telecomunicações, são consumidos os mesmos filmes, utilizadas as mesmas roupas, ouvidas as mesmas músicas, falado o mesmo idioma, cultuados os mesmos ídolos. Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado, esse profano deus, o bicho pega e as idéias morrem.

Vivemos o fracasso das ideologias e das grandes instituições. Eu, que trabalho com alunos adolescentes e adultos, percebo que as crenças e projeções de futuro da rapaziada foram substituídas pelo pânico cotidiano - do assalto e das doenças, no âmbito pessoal, às catastrofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma lógica perversa - como posso morrer de bala perdida ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.

Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças. Restaram, talvez, duas tristes utopias possíveis, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir tal produto e a de que poderemos ter um corpo perfeito.

Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acadêmias de ginástica nos espaços de exercício da utopia, onde poderemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo-esquálido das modelos.

É aí, e eu queria falar disso desde o início, que localizo na minha cidade o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global - o botequim. Ele, o velho buteco, o pé-sujo, é a Ágora carioca. No botequim não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.

O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.

É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do buteco, capitaneada por gigantes no assunto como meu mano Edu Goldenberg e o mestre Fernando Szegeri, como algo com uma dimensão muito mais ampla que o simples exercício de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade.

A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva uma Ágora efetivamente popular, espaço de geração de idéias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que tem pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim é o anti-shopping center, é a anti-globalização, é a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo doente das anoréxicas - doença comum nesse mundo desencantado.

Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o deus e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o ser humano é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios e afogar suas dores e medos na próxima cachaça. É onde a alma da cidade grita - Não passarão!

Essa guerra, amigos, é muito mais significativa do que imaginam os arautos do bom gosto e da tolerância."


Até.

5 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Dizer o que diante disso? Camaradas, às armas! Salve nosso Comandante!

4rthur disse...

Realmente, de tão bem escrito e completo, nem vejo como acrescentar qualquer comentário. A não ser afirmar que foi, sem dúvida, um dos melhores e mais pertinentes textos que li nos últimos tempos.

4rthur disse...

Edu, a postagem Do dosador, que, entre outras coisas, fala sobre a vergonhosa atitude do Falabella, inspirou-me a escrever um texto lá no blog, que urge por um comentário seu.

Saudades, malandro.

Augusto Diniz disse...

Simas, irmão, o texto humano de poucos. Ver a praga da uniformização de costumes é fácil. Difícil é conviver com ela. Mais ainda quando se sabe que esse troço desgasta a alma, pertuba o bom senso. Porra, vai expressar isso tão bem na casa do cacete: "... uma Ágora efetivamente popular..."

Eduardo Goldenberg disse...

Brunão: é verdade, mano... às armas!

Arthur: não foi outra a razão pela qual reproduzi na íntegra o definitivo texto do Simas!

Augusto, querido... é ou não é, o Simas, dono de um texto daqueles de nos deixar babando na gravata? Gênio. Quando eu for careca, quero ser como ele.